FALA POLÍCIA!

08/06/2013 12:49

TEMPOS DE FALAR

 

Adaptado de um texto para realidade da Polícia Militar, do renomado Jornalista, Cientista Político, Coordenador da Repórter Brasil e Professor da PUC-SP. Brasil, Leonardo Sakamoto

Frente às inúmeras demissões de policiais militares, reflito com o texto abaixo:

 

Não se trata de uma incitação à guerra, mas uma crítica à inação do policial militar. Do ponto de vista institucional, os Oficiais não estão errados em aplicar o remédio que acham melhor, por mais amargo que seja, até porque a Lei os determinam. Isso é o que se espera deles, quem pensa o contrário acredita em Papai Noel e no Coelho da Páscoa. Nós que, ao permanecermos em silêncio, acatando tudo bovinamente, é que estamos errados. Nós não ficamos quietos quando os administradores de plantão da República baixam ordens que prejudicam a população, gestadas a quatro paredes, sem dar justificativa alguma, mas nos calamos quando o mesmo acontece em nosso microcosmo. Um caso é de interesse público e outro uma relação privada? Aham, Tupac. Senta lá! 

 

Policiais militares são escalados para trabalhar, todos os anos, na Parada do Orgulho LGBT, na Marcha da Maconha, na Marcha das Vadias, na Marcha pela Liberdade, na marcha para a cerveja depois do expediente, portanto, não me digam que não sabem o que é uma mobilização por uma razão justa. Até porque policial militar é o primeiro encarregado de assegurar todos esses direitos pelas razões mais justas ou injustas. Mas é incapaz de deixar o cada um por si e o sobrenatural da mitologia cristã por todos e dizer “Pera aí! Isso não é certo com o colega. Vamos conversar?”

 

De tempos em tempos, nós – policiais militares – somos surpreendidos com notícias de demissões arbitrárias em unidades da PM Paulista. Atos que foram batizados carinhosamente com nomes de mídias digitais: “PD, CD, IPM, I-POD” e como tais objetos, armazenam um banco de dados altamente desenvolvido de injustiças promovidas pelos administradores da Polícia Militar. Não vou discutir as razões que levam à dispensa de colegas de profissão – os motivos dos “ajustes” vão desde a justa necessidade de sobrevivência da imagem da instituição junto à comunidade (fazer bom policiamento pode ser arriscado), passando pelos impactos causados pela segurança privada e/ou pela má gestão até a maximização de resultados para sustentar a cobrança da imprensa. Então, para não ser leviano, precisam ser analisadas caso a caso.

 

Mudanças acontecem e a nova geração que, hoje, pega um tablet na viatura, com dois dedinhos, tenta ampliar uma foto como uma tela sensível ou que não entende por que a TV da Companhia não responde aos seus toques terá uma relação diferente com a Segurança Pública que temos hoje. O velho modelo de polícia vai morrer no meio dessa transição. Outros migrarão para a iniciativa privada ou outros órgãos públicos, afinal hoje há um alto índice de policiais com formação universitária. Atores novos estão surgindo, pensados para aterrorizar a sociedade, PCC, quadrilhas especializadas, ex-policiais que migram para o mundo do crime, milícias. Quem não se adaptar e não se planejar para essa virada, vai comer capim pela raiz mais cedo.

 

Vou me ater ao outro lado da mesa, ou seja, como reagimos a isso. Até porque, após uma leva de demissões, não fico sabendo de nenhum ato de solidariedade aos demitidos pelos próprios colegas de profissão. Talvez pelo medo de também perder o emprego, talvez pela sensação de impotência que resulta da lenta e contínua acomodação, talvez por que o horário do serviço e do trabalho extra não deixa, talvez por algo maior que isso. O fato é que, quando colegas começam a serem chamados para a sala de seções de Justiça e Disciplina para uma conversa com o chefe, não raros nos afundamos em nossas baias, torcendo para não sermos vistos.

 

Nós, policiais militares, muitas vezes não nos reconhecemos como classe trabalhadora. Devido às peculiaridades da profissão, desenvolvemos laços com o poder e convivemos em seus espaços sociais e culturais, seduzidos por ele ou enganados por nós mesmos. Só percebemos que essa situação não é real e que também somos operários, quando nossos serviços não são mais necessários em determinado lugar.

 

Fazer protestos por melhores condições, que incluem certa estabilidade para trabalhar sem temer o que se faz? Imagina! É coisa de caixa de banco, de operário sujo de graxa ou de condutor de trem que atrasam nossa vida e geram congestionamentos na cidade. Ou de inglês, francês e italiano que têm a vida ganha e mamam no Estado. Enquanto isso, quem tem consciência de que é um trabalhador e reivindica coletivamente, como muitos bancários, metalúrgicos e metroviários, tem mais chances de obter o que acha justo.

 

Quando estou escalado para trabalhar em protestos e greves, fico pensando como pessoas que não conseguem se reconhecer como classe trabalhadora podem entender as reivindicações de trabalhadores. O fato é que não somos observadores externos e nem podemos ser. Somos parte desse tecido social, desempenhamos uma função, somos parte da engrenagem, gostemos ou não.

 

Leiam esse poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht que tratava da indiferença: “Primeiro levaram os comunistas, /Mas eu não me importei /Porque não era nada comigo. /Em seguida levaram alguns operários, /Mas a mim não me afetou /Porque eu não sou operário. /Depois prenderam os sindicalistas, /Mas eu não me incomodei /Porque nunca fui sindicalista. /Logo a seguir chegou à vez /De alguns padres, / Mas como nunca fui religioso, /também não liguei. /Agora levaram a mim /E quando percebi, /Já era tarde.” Andaram pela mesma linha Maiakovski e Niemöller, escrevendo sobre o não fazer nada diante da injustiça para com o outro, até que, enfim, o observador passivo se torna a vítima. Hoje, não é comigo, então que se danem os outros. E quando chegar o amanhã e vierem bater à sua porta?

Ou, lembrando John Donne, poeta inglês, citado em “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway, ao defender que a morte de qualquer homem me diminui, pois sou parte da humanidade: nunca procure saber por quem os sinos dobram. Pois eles dobram por ti.


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