Em ‘guerra’, policiais militares cobram mais apoio

20/10/2012 22:48

Familiares e membros da corporação, que sofreu ataques em Ribeirão, falam sobre clima de insegurança

Foto: Matheus Urenha / A Cidade

Uma guerra não declarada. É assim que policiais militares ouvidos pelo A Cidade classificam a série de atentados que já matou mais de 80 policiais no Estado e alvejou membros da corporação de Ribeirão Preto, dois deles atingidos por tiros de supostos homens a comando da facção criminosa que comanda os presídios paulistas.

Na madrugada de sábado (20), após um dia marcado por cinco mortes, uma base da PM foi alvejada por criminosos. Os policiais cobram do Comando da Polícia Militar uma postura mais firme diante dos ataques que os homens da lei sofreram nos últimos meses. De acordo com eles, os criminosos, muitas vezes estão mais equipados que o efetivo. Policiais de baixa patente apontam que não podem usar armas de grosso calibre, o que dificulta ainda mais o combate à criminalidade.

 

"Estes homicídios têm os culpados pela ação e os culpados pela omissão. Só não sei quem são os mais covardes", aponta um policial ouvido pela reportagem, que preferiu não se identificar.  Além da cobrança pela estrutura melhor, os policiais ainda denunciam diferenças de tratamento. Enquanto um capitão da PM que foi baleado por criminosos conta com escolta dos companheiros, um soldado alvejado não tem nenhum tipo de proteção, ficando à mercê de uma nova ofensiva.

Medo de atentados, falta de apoio da corporação, famílias aterrorizadas e diferença de tratamento de acordo com a patente. Estas são as principais reclamações de policiais militares que, desde setembro sofrem com a onda de ataques de criminosos. Em Ribeirão Preto, quatro PMs foram vítimas de ataques. Dois deles ficaram feridos. Em todo o Estado de São Paulo, 86 morreram em confronto com integrantes de uma facção criminosa (PCC).

Os policiais garantem que vive uma "guerra não declarada" nas ruas e precisam também, em casa, ter calma para amenizar o sofrimento da família amedrontada com a onda de atentados. Eles salientam que apesar das ameaças dos criminosos, a tropa está unida e combativa, mas quer apoio efetivo do governo para combater os criminosos.

"Os policiais estão sendo alvos de ataques realizados por bandidos que nada têm a perder. As famílias estão em desespero, e sem saber a quem recorrer. Contamos apenas com a ajuda Divina, uma vez que o alto escalão da corporação não tem dispensado a devida atenção, principalmente para os casos que já ocorreram", diz um policial. (A CIDADE)

Diferenças

Segundo eles, existe diferença de proteção entre as vítimas dos atentados. O policial, vítima dos criminosos no posto de combustível do bairro Monte Alegre, no dia 25 de setembro, não teria contado com segurança dos companheiros de farda. Já o capitão baleado no último domingo teria tido escolta 24 horas por dia. "Temos policiais que sofreram ataques e sobreviveram, que estão vivendo o terror da iminência de um novo ataque a qualquer momento, sem nenhuma garantia ou segurança por parte da corporação", diz um PM.

Uma policial feminina conta que se sente impotente diante dos últimos acontecimentos. "Estou com medo. É impossível viver, trabalhar, defender alguém, quando não podemos sequer nos defender. Somos pegos na surpresa, na traição, na covardia", diz.

PMs reclamam de falta de estrutura

Os policiais militares também denunciam que enfrentam a falta de estrutura da corporação. "Falta viatura e muitas vezes o veículo é consertado com peças usadas de viatura batidas, viaturas sucateadas", diz um deles.

Outro explica que não tem colete a prova de balas suficiente para todos, é preciso fazer um revezamento. Já cabos e soldados não podem usar armas longas ou de poder de fogo maior que a sua pistola ponto 40. Para os policiais, o poder de fogo da facção criminosa, que tem armas de grosso calibre, é muito maior que o deles. "O efetivo é pequeno e o comando diz que se não baixar os índices de crime, vamos ter escalas extras. Precisamos de mais policiais e armas potentes", afirma outro.

Eles também denunciam que nas bases da PM até o café servido é comprado com o dinheiro dos próprios policiais. "A água é da torneira e muitas vezes completamos os galões vazios porque nem água potável o Estado oferece", diz.

Viúvas podem ficar sem receber seguro de vida

A advogada Edmeia Manzo, defensora de policiais há 18 anos, apenas quem tem contato com o dia a dia dos agentes públicos sabe o que cada um deles passa. Ela atua como advogada da Associação de Cabos e Soldados e vive o dia a dia da PM. As viúvas dos policiais que sofreram ataques só receberão o salário do marido se a corporação abrir uma sindicância e fizer constar no documento que eles morreram porque foram alvos de atentados por serem policiais. "O policial que sofre essa violência fora do horário de serviço fica sem a cobertura do seguro de vida de que tem direito como policial", afirma.

Segundo ela, o policial que é morto fazendo trabalho externo, o famoso bico de segurança, é punido administrativamente porque o regulamento veta o trabalho. "Se morrerem fazendo bico a família não recebe nada. E mesmo quando a família recebe tem que esperar de três a quatro meses para o salário ser regularizado perante a instituição."

A advogada afirma que o Estado regula o trabalho policial em Regime Especial de Trabalho Policial, o que o  obriga a ficar a disposição do Estado durante 24 horas. "Se ele está no ônibus e acontece algo tem o dever e a obrigação de agir. Mas fazer o bico para reforçar o salário dele, faz com que a corporação o deixe a Deus dará", diz. "O governo está prometendo mudar isto depois da onda de atentados. Ele diz que a família vai receber o seguro sem ter que entrar na Justiça. Vamos esperar", acrescenta.

Famílias reclamam de críticas a policiais

As famílias querem uma posição do Comando da Polícia Militar que, segundo elas, ignoram as ameaças feitas pela facção criminosa que domina os presídios paulistas.
"Os policiais não podem ficar à mercê de bandidos. Todos os dias ficamos sabendo que um companheiro foi morto e ninguém do comando abre a boca para defendê-los. Dizem apenas que são casos isolados", afirma uma PM.

Inconformada, ela desabafa que os bandidos têm o direito de cobrir o rosto, mas os policiais, que deixam seus lares para defender a sociedade, estão desprotegidos e sem defesa. "Quantos ainda têm que morrer para o assunto ficar sério?"

A esposa de um policial diz que fica irritada quando ouve críticas da atuação dos PMs. "A realidade de um policial é muito pouco conhecida. Eles respondem por todos seus atos e de forma muito rigorosa. A disciplina é muito rígida e muitos podem perder o emprego." Ela destaca que a realidade do criminoso é diferente do cotidiano do PM.

"Eles assaltam, roubam, estupram, matam e quando são presos têm alimentação, visitas íntimas, celulares ilegais e indultos." Para a mulher do policial, a sociedade não cobra dos fora da lei o que cobra dos agentes públicos. "Nosso país está um caos. Condenam a Polícia Militar? Deem a eles condições de trabalho digna. Deem a eles condições de nos proteger."

Para os policiais que entraram em contato com a reportagem, a sociedade precisa saber que os criminosos estão medindo forças com a PM e querem acabar com a ordem pública. "A sociedade já está começando a ver que isso está virando uma guerra. Se eles enfrentam a PM poderão enfrentar a população. O poder de fogo dos marginais é mais forte e sempre usam o menor para assumir os seus atos. Enquanto não mudarem as Leis e criarem represálias isso não vai mudar."

Porta-voz da PM rebate acusações de policiais

O capitão Maurício Rafael Jerônimo de Melo, porta-voz da Polícia Militar de Ribeirão Preto, afirma que os depoimentos de policiais militares colhidos pela reportagem não representam o pensamento de toda a tropa de Ribeirão Preto. "Isso é uma inverdade", escreve o porta-voz.

Segundo ele, os policiais militares da cidade são vocacionados e cumpridores do seu juramento de defender a sociedade com o sacrifício da própria vida, sentem-se honrados em poder contribuir para a tranquilidade e a segurança de todos.

Tratamento igual
O capitão da Polícia Militar ressalta também que não há tratamento distinto em hipótese alguma, entre possíveis vítimas de ações criminosas, como relatado pelos policiais. O porta-voz garante que nenhum policial é colocado de serviço sem seu colete, armamento ou comunicação. O capitão diz  ainda que todos os homens recebem apoio da corporação e são orientados a adotarem medidas de segurança estando de serviço ou de folga.

 


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